Um espaço onde cabem todas as vidas, emocionalmente ligadas por experiências de provação e histórias de humanização. Para percorrer sem guião, com autoria de Georgina Angélica e Paula Cardoso.
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Em 2024 criou, encenou e interpretou o espetáculo “Blackface”, a partir de uma velha prática racista. No ano seguinte, juntou a direção artística ao currículo, com “Reparations, Baby!”, peça que usa um concurso de TV para debater reparações históricas. Agora planeia um musical ‘fora de tom’, em que o hino nacional promete desafinar ideias. Marco Mendonça é o convidado deste episódio d’ “O Tal Podcast”, e sobe hoje ao palco do Planetário da Marinha, em Lisboa, com “Hotel Paradoxo”, em cena até sábado, 23.
Entre histórias da infância em Moçambique, o fascínio precoce pela performance e a descoberta do teatro como espaço de liberdade, Marco Mendonça reflete sobre o impacto pessoal das suas investigações em torno do passado colonial português e da presença negra na cultura contemporânea.
Com a honestidade e ironia que atravessam criações como “Blackface” e “Reparations, Baby!”, o ator e encenador falou sobre o impacto pessoal das suas investigações em torno do passado colonial português, da presença negra na cultura contemporânea e das dinâmicas de poder que persistem dentro e fora das artes. “Uso muitas vezes os espetáculos que faço para aprender mais. Facilmente me esqueço de coisas importantes: factos, datas. É bom ter várias notas nestes processos de investigação e de pesquisa, para ter acesso direto à história, e àquilo que vou recolhendo como material de uma forma mais acessível para mim também.”
O humor e o riso acompanharam Marco Mendonça desde a sua juventude, tornando-se cedo uma forma de relação com o mundo: “Achavam que eu fazia bem imitações, porque eu sempre fiz questão de ser um dos palhaços da turma. Quando havia situações mais risíveis, eu tentava estar sempre envolvido nelas.”
Esse impulso para “mandar larachas” foi-se construindo ao longo do tempo, até resultar na criação em palco.
Depois do secundário em Artes Visuais, entrou em Estudos Artísticos na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, mas bastaram duas semanas para perceber que o melhor seria avançar para a Escola Superior de Teatro e Cinema. “De repente, ali era um espaço de liberdade total. Vamos abraçar-nos e chorar e ser vulneráveis à frente uns dos outros.”
Pelo meio, houve espaço para falar da “alma velha” de Marco Mendonça, num momento em que, aos 31 anos, assume novas responsabilidades e outra relação com o trabalho e com o corpo.
A conversa trouxe ainda uma notícia esperada por muitos — o regresso do espetáculo “Blackface” a Lisboa — a que se junta outra novidade: vem aí um musical sobre o hino nacional português, com estreia prevista na Culturgest.
Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.
Poeta, investigadora, arte-educadora e ativista, Raquel Lima é a primeira intelectual portuguesa, angolana e são-tomense galardoada com o Prémio Emma Goldman, recebido no último mês de março, em Viena de Áustria. A experiência, conta neste episódio de “O Tal Podcast”, permitiu-lhe refletir sobre merecimento, autocuidado e literacia financeira, e constatar como, independentemente de geografias, as mulheres partilham uma espécie de “síndrome da impostora coletivo”.
Nascida em Lisboa, filha de mãe angolana e pai são-tomense, cresceu na margem sul do Tejo, entre uma infância marcada por precariedade, ruturas familiares e perdas precoces, que viriam a tornar-se matéria viva da sua escrita.
A sua assinatura literária tem passado por vários formatos, tanto no spoken word, como através da academia. Publicou livros como “Ingenuidade, Inocência e Ignorância” e “Ululu”, e hoje trabalha também a partir da oratura, ligada às tradições africanas de transmissão oral.
Fundadora da União Negra das Artes, tem vindo a pensar o coletivo como espaço de criação, mas também de desgaste. “Perceber o que o coletivo quer dizer é isto: não pode recair sobre uma, duas ou três pessoas que ficam sobrecarregadas”, nota, ao refletir sobre os limites do trabalho partilhado e a necessidade de abrandar sem abandonar a comunidade.
Neste episódio, a conquista recente do Prémio Emma Goldman surge como ponto de inflexão. Distinção internacional atribuída em Viena, o prémio chega num momento de transição pessoal e abre espaço para uma reflexão sobre merecimento e autocuidado. Entre outras oito mulheres de geografias diversas, Raquel reconhece um “síndrome da impostora coletivo”, como se a dúvida sobre o lugar de cada uma fosse menos individual do que estrutural.
“Ainda estou a processar”, diz, ao falar de uma distinção que mexe com a autoestima e com a forma como o trabalho é validado.
Ao mesmo tempo, a artista revela que os 50 mil euros correspondentes ao prémio a fizeram questionar a relação com o dinheiro, e a importância da literacia financeira.Tudo de um lugar onde defende que aprender a receber é tão importante quanto aprender a cuidar.
Raquel partilha também como a espiritualidade atravessa o seu percurso de forma central. “Eu acho que a nossa revolução só vai acontecer se a gente puser o espiritual aí dentro. Acho que a nossa batalha mesmo antirracista, feminista, é espiritual”, assinala, ao falar de práticas de espiritualidade de matriz africana que recuperou em adulta.
Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.
Nascido em Portugal em 1981, ano em que a Lei da Nacionalidade entrou em vigor, o escritor Ângelo Delgado reflecte, neste episódio de “O Tal Podcast”, sobre a relação entre documentos e acolhimento. “Cresci num país que me via como alguém diferente”, diz o autor do romance “Foi o Preto”, obra lançada no início do ano, que espelha bem as fraturas raciais que continuam a dividir o país. “A nacionalidade não vale por si só”, sublinha.
Escritor, leitor compulsivo e voz ativa na reflexão sobre identidade e racismo, Ângelo Delgado abre espaço, entre memórias, feridas e reconstruções, para uma conversa onde a escrita surge como refúgio, mas também como confronto. “É onde vomito aquilo que me vai na alma”, confessa, revelando um processo criativo profundamente íntimo e, muitas vezes, doloroso.
No centro da conversa está “Foi o Preto”, obra construída a partir de vivências reais — suas, da família e de pessoas próximas. Mais do que um livro, é um exercício de exposição e catarse.
“Tive de remexer nas minhas entranhas”, admite. O resultado é uma narrativa provocadora, que coloca o leitor diante do desconforto e o deixa, tal como o racismo faz, “num beco sem saída”.
O autor revisitou uma infância marcada pela sensação de diferença. “Cresci num país que me via como alguém diferente”, recorda, apontando a escola como o primeiro espaço onde essa perceção se impõe, muitas vezes sem explicação, sem espaço para questionar.
“A nacionalidade não vale por si só”, diz, sublinhando que o verdadeiro reconhecimento continua a depender de códigos invisíveis — hábitos, comportamentos, formas de estar.
A conversa atravessa também as dinâmicas familiares e culturais que moldam o seu olhar sobre o mundo. Das mulheres cabo-verdianas, fortes, resilientes, frequentemente sobrecarregadas, às estruturas comunitárias que contrastam com o isolamento vivido na diáspora, há um constante movimento entre geografias e significados. “É como colorir memórias a preto e branco”, descreve, num processo de redescoberta da própria identidade.
Pelo caminho, há ainda espaço para pensar o racismo para lá do discurso imediato, questionando a forma como ele é abordado publicamente, e defendendo a literatura como lugar essencial dessa reflexão. Porque, no fim, escrever não é apenas contar histórias: é dar sentido ao passado, reorganizar o presente e, talvez, encontrar alguma forma de liberdade.
Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.
Nomeada para os Prémios Sophia 2026, marcados para o próximo dia 15 de maio, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, Cirila Bossuet vai disputar a categoria de Melhor Atriz Coadjuvante, pela interpretação no filme “Banzo”, de Margarida Cardoso. A indicação, logo na sua primeira experiência no cinema português, evidencia a importância das oportunidades, um dos temas em destaque neste episódio de “O Tal Podcast”.
Desde cedo habituada a um ambiente familiar intenso e cheio de vida, foi no silêncio que encontrou o seu lugar. Antes de subir a palco, Cirila Bossuet era a criança que observava e apreciava o silêncio. Hoje, é nesse mesmo equilíbrio, entre interioridade e exposição, que constrói uma carreira marcada pela entrega total à arte de representar.
Neste episódio de “O Tal Podcast”, a atriz revisita um percurso que começou quase por acaso: seguiu uma amiga para o teatro sem imaginar que ali encontraria a sua voz. “Não fazia ideia do meu tom, do que o meu corpo era capaz”, conta, descrevendo o teatro como um portal de autoconhecimento que lhe permitiu ocupar espaço, falar mais alto e sentir que a sua opinião importa.
Se a descoberta artística foi inesperada, as raízes estavam lá desde sempre. Filha de bailarinos fundadores do Ballet Nacional de Angola, Cirila cresceu rodeada de expressão artística, embora só mais tarde tenha feito essa ligação. A história familiar, marcada pela migração forçada e pela reconstrução em Portugal, trouxe consigo uma palavra-chave: responsabilidade. E com ela, o desejo profundo de honrar o percurso dos pais.
Entre múltiplos projetos simultâneos, exaustão física e a instabilidade da profissão, Cirila fala abertamente sobre os desafios de viver da arte em Portugal. Do “veneno da comparação” ao ritmo avassalador de Lisboa, a atriz descreve um meio onde “há sempre a sensação de que se deveria estar a fazer mais”. Ainda assim, resiste, criando distância ao viver fora da cidade, em Sintra, onde encontra o seu “ninho” e o silêncio necessário para se reconstruir.
A conversa abre ainda espaço para uma reflexão crítica sobre a falta de oportunidades no cinema e na televisão portugueses, onde, lamenta a atriz, “vemos sempre as mesmas caras”. Deixa, por isso, um apelo por processos mais justos e inclusivos.
Ouça a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso aqui.
Licenciada em Gestão, e empresária há mais de uma década, Rita Évora dos Santos transformou as aprendizagens num programa de mentoria exclusivo para mulheres, e focado em finanças sistémicas. Uma abordagem que desenvolve a partir do entendimento de que “o dinheiro é emoção”, conforme partilha neste episódio de “O Tal Podcast”, em que sublinha a importância das crenças e padrões familiares na relação com a área financeira, e partilha como Cabo Verde lhe devolveu o sorriso.
Todos os cêntimos contam, por isso, mesmo a moeda mais pequena deve ser valorizada, defende Rita Évora dos Santos. “Não vim de um sítio com dinheiro, tive que o ganhar. E hoje respeito todo o tostão. Se vejo um cêntimo, apanho”, diz a convidada desta semana de Georgina Angélica e Paula Cardoso.
Filha de uma empregada de limpeza e de um trabalhador da construção civil, a gestora conta que aprendeu com os pais o sentido de sacrifício.
“Vou fazer o que tiver que ser feito para me manter intacta”, garante, dando como exemplo a forma como conduz o seu negócio.
“Tenho uma empresa de gestão de alojamentos, mas o nosso core também são limpezas. Se tiver que limpar um apartamento, sou a primeira”.
Além das lições que traz da infância, nomeadamente que pobreza não é sinónimo de indignidade, e que o básico é o essencial, Rita partilha como a experiência empresarial tem sido formativa.
“Limpámos as nossas poupanças para empreender”, revela, recuando aos primórdios da sua aventura empresarial, iniciada com o ex-companheiro, há mais de 10 anos.
Hoje mentora de finanças sistémicas, a empresária conta que chegou a ter a conta ordenado a negativo – “Então, muitas vezes saía à meia-noite do trabalho, e às sete da manhã estava a limpar um escritório” – antes de encontrar a sua ‘fórmula’ de poupança.
“Há pessoas que com aquilo que têm fazem uma vida digna, e há pessoas que estão enrascadas, porque somos influenciados por muitos viciozinhos. Vivemos num mundo de consumismo”.
Sem ceder às inúmeras pressões de compra, Rita explica como se foi ‘libertando’.
“Quando acabei de comprar o carro, continuei a pôr [dinheiro] de parte. Quando aluguei a casa, tinha o Porta 65, e aquilo que me deram pus de lado, como se estivesse a pagar a renda por completo. E ganhei este hábito”.
A partir do que tem vivido, a empresária pretende apoiar outras mulheres na sua gestão financeira. “Quando conheço as finanças sistémicas, percebo que o dinheiro é emoção”, afirma, convicta da importância de manter o foco feminino do seu trabalho.
“Uma coisa que as mulheres têm é empatia. A minha mentora, que me trouxe às finanças sistémicas, diz: cada mulher que encontro traz-me notícias de mim”, partilha a empresária neste episódio de “O Tal Podcast”, em que revê as próprias reconstruções emocionais.
“Vim de Cabo Verde super apaixonada por mim, porque conheci uma Rita que não via há mais de 20 anos, que sorri só porque sim. O meu sorriso estava apagado e voltou”.
O processo de transformação, revela a empresária, implicou uma mudança de vida completa.
“Saí da relação em que estava, e vi-me sozinha pela primeira vez. Na altura até isolei-me um bocadinho, passei por uma tristeza, até perceber que a tristeza também é boa. E comecei a abraçá-la, e a abraçar-me”.
Mais do que isso, Rita garante que renasceu: “Passei a olhar para mim e a gostar, a perceber que não são os outros que me veem. Sou eu que tenho de me ver primeiro. Isso tornou-me ainda mais bonita”.
Ouça a conversa na íntegra aqui.
O convite para pisar o palco da TEDxLuanda deu um novo rumo à vida de Marco Aurélio Mendes. Filho de angolanos, nascido no Algarve, o gestor e empreendedor conta, neste episódio de “O Tal Podcast”, o que o levou a trocar Portugal por Angola, há quase 15 anos. Nesta conversa, recorda também como sobreviveu a uma malária muito grave, encontrou na adoção uma nova forma de olhar o mundo, e se tornou aprendiz e mestre de liderança.
O título do livro é provisório – “Sonhalidade” – e, antecipa Marco Aurélio Mendes, nele caberão os primeiros 50 anos da sua história de vida, demarcada pela “linha que separa o sonho da realidade”. Ainda em fase de “rabisco-sarrabisco”, conforme o gestor pré-cinquentão faz questão de assinalar, a autobiografia apresenta 2016 como um ano de renascimento.
De volta a esse período, o convidado desta semana de Georgina Angélica e Paula Cardoso recorda os efeitos de uma malária muito grave. “Estive três meses no hospital, perdi um pouco da audição, cabelo, 18 quilos, e toda a massa muscular. Acho que só fiquei a 100% dois anos depois”.
A experiência, com passagem por 10 dias de coma induzido e sessões de hemodiálise, impulsionou velhos planos familiares.
“Se Deus me deu uma segunda oportunidade de cá estar, achei que devia dar corpo a este sonho: entrámos no processo de adoção”.
Juntamente com a mulher, Nancy, Marco, à época já pai de Francisca, tornou-se também pai de Alexandre, e, mais recentemente, de David.
“Vou no terceiro filho, e todos me fizeram mudar”, nota o empreendedor, lembrando uma das primeiras lições que recebeu quando decidiu adotar.
“Uma coisa que a psicóloga nos disse é que não se escolhe. Escolhe-se uma mercadoria, as crianças sinalizam-se”.
É também ao círculo familiar que o convidado deste episódio de “O Tal Podcast” vai buscar uma das aprendizagens mais estruturantes da sua liderança.
“Mal cheguei [a Luanda], estava a criticar a equipa e o meu pai disse: ‘não te esqueças que, quando chove, a rua de boa parte destas pessoas vira um rio. Se calhar algumas meninas tiveram que ir buscar água para tomar banho. É importante que penses nisso”.
Mais do que refletir, Marco começou a questionar quem são os trabalhadores que tem a responsabilidade de gerir.
“Onde e como vivem? Porque se vivem oito pessoas dentro de um quarto, o sono não é tranquilo”, diz, por um lado; enquanto, por outro, observa: “Comecei a perceber que era complicado desenhar um caminho a três anos, quando a pessoa ao meu lado só está a pensar em como consegue 200 Kwanzas para ir para casa”.
Cada vez mais atento a quem o rodeia, o gestor transforma as experiências de liderança em conversas, integradas no podcast “Performance 360”.
“Muitas empresas acham que construir ADN é ir buscar os quadros da concorrência que já trabalham bem”, aponta, questionando a estratégia: “Vais trazer o ADN da concorrência, e não constróis o teu?”.
Confiante no potencial do denominado continente-berço, que apresenta como “o diamante da Humanidade”, Marco Aurélio Mendes considera que “as lideranças estratégicas cada vez mais serão entregues a mulheres”, num movimento que vê como “uma revolução que África irá viver nos próximos anos”.
Qual será o papel de Angola nesta transformação?
Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.
Em vésperas de subir ao palco com a peça “Kabeça Orí”, que estará em cena no Teatro São Luiz, em Lisboa, de 11 a 18 de abril, Aoaní revela, neste episódio de “O Tal Podcast”, como a representação sempre fez parte dos sonhos de infância, igualmente povoados de aspirações jornalísticas. Hoje com um percurso profissional que cruza as duas áreas, a atriz revisita várias etapas desse caminho, desde a saída de São Tomé e Príncipe alargado a Portugal, Brasil, Angola e EUA, onde se casou, divorciou, e se apanhou a viver em estado de alerta racial.
Apresenta-se livre de apelidos, à imagem da icónica ‘Queen Bey’. “A Beyoncé não tem apelido. Percebi que não há necessidade de ter um. Portanto, achei interessante responder só por Aoaní”.
O posicionamento, explica a convida de Georgina Angélica e Paula Cardoso, não deve ser confundido com eventuais tentativas de distanciamento e apagamento familiar.
“Os Salvaterra não têm papas na língua. São uma força da natureza, têm sempre opiniões fortes. E eu acabo por ser assim, porque a minha mãe também é”, adianta, vinculando-se ao sobrenome materno, enquanto identifica outras heranças parentais.
“O stand-up entra na minha vida porque sou palhaça, tanto [da parte] do pai como da mãe”, nota a atriz, lembrando que a avó Lourença, que faleceu no ano passado, com quase 102 anos, “era muito gozona”.
Mais do que um traço herdado, Aoaní vê nos gracejos uma via de resistência.
“É muito presente nas nossas vivências o rir para não chorar. É um bocado de espírito de sobrevivência”.
O reconhecimento de experiências transversais às vidas negras não é, contudo, sinónimo de indiferenciação individual, avisa a atriz.
“Não sou representante de ninguém, não carrego o povo negro às costas. Sou negra e, se as pessoas se revirem na minha história e na forma como eu crio, fantástico”.
Agora com um novo espetáculo, intitulado “Kabeça Orí”, a são-tomense prepara-se para subir ao palco do Teatro São Luiz, em Lisboa, de 11 a 18 de abril, na companhia de Joyce Souza.
A proposta autoral dá resposta à necessidade de abrir caminho. “Em Portugal, ainda temos pouco espaço no mercado, mas creio que a solução seja criar as nossas histórias e contá-las, criar o nosso próprio espaço. E é isso que tenho feito, ou tentado fazer”.
O resultado que agora já se apresenta no palco, passou primeiro por um laboratório de aprendizagens, que tiveram nos Estados Unidos um eixo primordial.
“O que me levou para os EUA foi a idealização de Hollywood, de trabalhar na Broadway, porque eu achei que era só chegar e ir”.
Não foi. Muito pelo contrário.
Se no início a dificuldade estava em arranjar trabalho sem documentos, depois de se casar e obter o Green Card, a falta de uma rede de apoio e de seguro de Saúde revelaram-se obstáculos intransponíveis, agravados por um permanente estado de vigilância racial.
“De cada vez que fosse parada, numa paragem de trânsito, normal, ficava muito aflita, porque não sabia se iria sair viva”, recorda, sem esquecer o impacto familiar.
“Uma amiguinha do infantário, ou ‘inimiguinha’, disse à minha filha que não podia ser uma princesa por ser preta. Isso para uma criança de 5 anos foi brutal. Ela chegou a casa a chorar”, diz Aoaní, sublinhando o peso das conversas que se seguiram.
“Tivemos todo um processo de reforço da autoestima. O trabalho é constante, até hoje”, destaca a atriz.
Acompanhe aqui a conversa, com Georgina Angélica e Paula Cardoso.
DJ e artista multidisciplinar, Diego Cândido, mais conhecido como Didi, tornou-se uma referência da cultura negra, queer e imigrante de Lisboa, onde aterrou depois de vários voos internacionais, que encontraram em Nova Iorque um destino de expansão identitária. Hoje coletivamente alicerçado nas “Afrontosas” e na “União Negra das Artes”, o também pesquisador brasileiro conta, neste episódio d’ “O Tal Podcast”, como as viagens o ajudaram a reconstruir a ideia de família e de casa.
Começou por romper fronteiras em 2009, graças ao curso de Direito. Quase 18 anos depois, o convidado de Georgina Angélica e Paula Cardoso vê na primeira viagem a Nova Iorque, concretizada no âmbito do projeto “Ciências sem Fronteiras”, uma mudança de rota vital.
“Não consegui mais parar”, revela o DJ e artista multidisciplinar, fundador do “Coletivo Afrontosas”.
Sempre em movimento, Didi tem percorrido milhas desde a formação nova-iorquina em “Business Management” (Gestão de Negócios), procedida, entre outros destinos, de voos para o Canadá e Londres, antes da chegada a Portugal.
Há cerca de oito anos no país, o brasileiro recorda, neste episódio d’ “O Tal Podcast” os planos académicos que trazia na bagagem.
“Cheguei [a Lisboa] para fazer um mestrado. Na época, queria tratar de temas que eram a base da minha forma criativa, artística, queria falar sobre movimentos negros a partir da perspectiva queer, da população LGBTIQI+. E ‘levei’”.
Cabe nesse “levei” uma série de embates que teve de enfrentar, diante da pouca ou nenhuma abertura que encontrou na Academia, para investigar as questões que o mobilizam.
O revés académico não travou, contudo, a vontade de encontrar respostas para uma pergunta que coloca desde o primeiro dia em Portugal: “Cadê elas? Onde estão as pessoas negras queer?”.
A interrogação deu lugar a um dos projetos desenvolvidos pelas “Afrontosas”, que permite reconhecer que essas presenças sempre existiram – e resistiram.
“Aos poucos, com muito auxílio dos movimentos negros, de pessoas diversas do próprio movimento LGBT, contamos essa história”.
Enquanto se resgatam referências do passado, Didi partilha como se está a construir história no presente, nomeadamente a partir da UNA – União Negra das Artes, via não apenas de organização, mas de “encontro afetivo”, apontado como uma das peças-chave para superar fronteiras geograficamente impostas.
“A imigração possibilita construir de novo, estreitar laços de formas até mais presentes, fortes e frutíferas do que os laços de sangue”, defende o DJ, surpreendido com a casa que encontrou em Lisboa.
“Vi-me apadrinhado por uma realidade que nunca imaginei encontrar, a partir do meu companheiro e da minha base coletiva, grandemente instituída pelo Coletivo Afrontosas”.
À experiência lisboeta juntam-se vários trânsitos de reconhecimento humano pelo país. “Nos meus quase oito anos de Portugal, tive chances de viajar pelo interior e entender que podemos ser muito parecidos diante das nossas diferenças do que imaginava”
Ouça o episódio completo aqui.
No Dia Internacional e Nacional para a Eliminação da Discriminação Racial, assinalado no último sábado, dia 21, o “O Tal Podcast” aceitou o convite da Casa Capitão, em Lisboa, para se juntar a um dia de reflexão, com a gravação de um episódio especial. Ao vivo, com a participação do público e a presença dos podcasters José Rui Rosário e Justino Sacalumbo como convidados, a conversa partiu de um compromisso: “Desfazer o silêncio, confrontar o ruído, e assumir o lugar de fala”.
Enquanto a pandemia impunha distanciamentos sociais, José Rui Rosário, assistente técnico na Câmara do Seixal, juntava-se a dois amigos para lançar “O Lado Negro da Força”, apresentado como “um lugar de escuta de vozes raramente ouvidas”, nomeadamente “portugueses negros, migrantes e pessoas racializadas”.
No mesmo período, marcado por muitas interrogações, o técnico de audiovisual Justino Sacalumbo saía de Angola e fixava-se em Portugal, onde acabou por criar “O Despertador Podcast”, como via para refletir sobre o que sempre teve vontade de questionar, abrindo também espaço para que outras pessoas se expressem.
Cada qual com o seu projeto, os dois convidados contam, neste episódio de “O Tal Podcast”, como o ato de partilhar percursos de vida se revelou uma via de transformação.
“O que tu viveste ontem hoje pode bater de frente com o que alguém esteja a passar. Isso salva vidas”, sublinha Justino, enquanto José Rui destaca o efeito terapêutico de cada encontro. “Foi tão bom saber que não estou sozinho, que as nossas histórias coincidem em muitas coisas, e que continuamos a ter força para acreditar na mudança”.
Sem nunca perder a ligação ao coletivo, o cofundador de “O Lado Negro da Força”, e da plataforma antirracista Kilombo, defende, nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, que a única forma de quebrar o silêncio sobre o racismo é “dizer o que é isto de nos sentirmos um corpo ausente, diferente, limitado ou acossado, cientes de que isto é uma maratona”, e não é uma corrida de 100 metros.
Mas, como falar quando isso pode custar o ganha-pão?
Justino arriscou. “Saí de um emprego quando me disseram: ‘és espetacular, trabalhas bem, mas tenta não falar muito angolano’”.
Confiante na sua identidade africana, o angolano explica que valoriza muito o sotaque, enquanto “a pronúncia linguística que identifica um povo, uma cultura, um indivíduo, uma nação”. Ao mesmo tempo, o podcaster destaca a resistência geradora do crioulo cabo-verdiano, distinção que sobressai na história de José Rui.
“Em casa, a minha mãe só falava crioulo. Esta questão da língua sempre foi algo que ela transformou em batalha, em afirmação”.
A herança, nota o também vocalista da banda rock Dixit, celebra-se para além das ligações familiares. “Falar crioulo continua a ser uma forma de resistência, uma forma de dizer que eu honro os meus ancestrais. Fico muito orgulhoso quando vejo os miúdos, nos bairros, a falar crioulo”.
É também na continuidade que José Rui encontra caminho. “Quando temos filhos estamos condenados a ter esperança. Tenho esperança nos meus filhos, em que se este planeta prevalecer ainda teremos pessoas que possam fazer a diferença”.
Já Justino, vê possibilidades na entrega, no compromisso de dar o melhor de si “naquilo que tem a ver com a consciência negra, a igualdade, o poder, o direito”.
Ouça aqui o episódio completo, encerrado com a intervenção do público.
Manequim com carreira internacional, que tem no currículo campanhas para gigantes da moda, como Dolce&Gabbana, Gucci, Prada e Louis Vuitton, Cláudio Gonçalves não esquece de onde veio. “Os bairros sociais e as comunidades imigrantes foram o planeta onde cresci e o princípio de tudo”, conta neste episódio de “O Tal Podcast”, em que recorda as privações da infância – transformada a partir da adoção –, e revela como o sucesso nas passerelles o inspira a transformar vidas.
Nas ruas da Cova da Moura cabia todo o mundo de Cláudio Gonçalves, até ser retirado da família. Tinha cerca de seis anos, e dava nas vistas pela infância errante, denunciada pelos vizinhos à Segurança Social.
“A minha mãe tinha três trabalhos e só a conseguia ver uma vez por semana, se tanto. Eu vivia com a minha avó, que era alcoólica”, recorda o manequim, que chegou a roubar para comer.
Hoje manequim de sucesso, o convidado de Georgina Angélica e Paula Cardoso rejeita endeusamentos e romantizações.
“Estou sempre a dizer: eu não sou especial, eu tive toda uma quantidade de recursos, uma educação diferente, que me meteram na posição em que estou. Isso é que mudou a minha vida: ter acesso a coisas que um jovem num bairro social não tem”.
Com um início de história marcado pela separação da família, Tibunga, como também é conhecido, conta que antes de ser adotado pela sua antiga professora, agora mãe, chegou a um ponto em que “já nem sabia se estava melhor na rua ou na instituição”.
Além das lutas diárias em que as crianças se envolviam, Claúdio revisita o sistema de abusos. “Tinha um trabalho de escravo, a descascar batatas de manhã à noite, a cavar campos e fazer 30 por uma linha. Coisas a que uma criança daquela idade [seis anos] não devia ser submetida”.
O ambiente de violência, agravado pela austeridade religiosa que o regia, assemelhava-se a “um campo de concentração”, compara o manequim, lembrando que, ali, as vidas encolhiam.
“Dormíamos num contexto de prisão, em camas individuais de ferro, em que cada um tinha uma gaveta, daquelas de mesa de cabeceira. Tinha lá dentro uma foto da minha mãe, uns berlindes, e pronto. A nossa existência era aquela gaveta”.
Sem nunca perder de vista as marcas do passado, Cláudio constrói, no presente, um caminho para abrir novos futuros.
“Há uma limitação nos sonhos dentro dos bairros sociais, em que os meninos querem sempre ser futebolistas ou aquele estereótipo que já se conhece”, nota o manequim, empenhado em transformar essa realidade.
“Se não fosse a minha mãe a resgatar-me daquela instituição, provavelmente ficava lá até os 18 anos, nunca teria sido modelo, estava a trabalhar numa caixa registadora qualquer. Sabendo isto, é minha obrigação voltar para trás e dizer: vou mostrar a um Cláudio de agora que é possível, e vou lhe dizer como é possível”.
O compromisso social ganha expressão em bairros das periferias de Lisboa, onde o manequim identifica um enorme potencial de mudança.
“Pessoas de sucesso nos bairros sociais há muitas, que conseguiram vencer e sair. Só que é necessário que voltem atrás e digam: vou ensinar os outros para conseguirem também”.
Enquanto inspira e influencia mudança, o manequim aponta igualmente para outros voos. “Um dos meus sonhos de vida é voltar para África, criar um império e empoderar as pessoas. Gostava muito que fosse em Cabo Verde”.
Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.
Vislumbrou na Psicologia uma tábua de salvação da própria dor e acabou frustrado, admite Kai Fernandes, o convidado desta semana de “O Tal Podcast”. Entretanto reconciliado com a sua área de estudos, o psicólogo percebeu, a partir do início da prática clínica, que teria de se ajudar para conseguir ajudar. Das feridas da adoção, aos traumas do racismo, a que se junta o processo da transição de género, a identidade de Kai representa, para muitas pessoas, a única via de reconhecimento. “Existem poucos psicólogos como eu: negro, trans, jovem, e que vive as não monogamias”.
Estávamos em 2020, quando o assassinato de George Floyd confrontou Kai Fernandes com as próprias sombras. “Percebi que não havia mais espaço para ignorar o impacto que o racismo tinha na minha vida”, recorda o psicólogo, de volta ao facto marcante que o levou a criar a página “Quotidiano de uma negra”, no Instagram.
“Era muito raro ter contacto com outras pessoas negras. Ter sido adotado por pessoas brancas, e ter crescido num espaço inteiramente branco se calhar atrasou o processo de encontrar a minha identidade”, conta o terapeuta.
Noutro momento decisivo da sua história, vivido em 2023, numa viagem à Tailândia, o psicólogo começou a perceber em si uma desconformidade entre identidade de género e sexo biológico.
“As pessoas falam muito do feminino e do masculino. E às vezes tenho dificuldade em encaixar-me nessa ideia binária. Daí a não binariedade, daí a ideia de transgénero”.
Hoje, e já depois de outro 'voo de reconhecimento' em direcção a Banguecoque, Kai não tem dúvidas sobre a sua afirmação.
"Sinto uma liberdade muito grande quando me expresso de uma forma masculina, porque me permite criar uma masculinidade que acredito que possa realmente ser uma mudança no mundo".
Distanciado dos modelos de masculinidade que se habitou a observar enquanto crescia, o psicólogo sublinha a importância de quebrar padrões tóxicos.
"Há momentos em que sinto saudades de meter uma maquilhagem ou usar uma roupa mais feminina”, diz, libertando-se da necessidade de encaixar em normatividades.
"O contraste entre o meu corpo feminino, de mulher biológica, com esta expressão da masculinidade define-me muito bem”.
Negro, trans, jovem, e muito interessado no território das relações não-monogâmicas, Kai encontra nas suas expressões identitárias a explicação para a diversidade de pertenças e geografias que recebe em consultório.
"Muitas pessoas querem ter alguém do outro lado, na terapia, que tenha uma semelhança com elas. Há muitas coisas na minha identidade que são a representação dos meus clientes", assinala, sem romantizações.
"A minha experiência não é representativa da maior parte das pessoas trans. As pessoas que me são próximas, no geral, acompanharam a minha transição. Senti muito acolhimento”.
Além do papel desempenhado por quem o rodeia, Kai destaca a influência dos lugares.
“Banguecoque foi o sítio onde eu passei a ser quem eu era e ninguém me questionou. Nem por ser negro, nem por me vestir de uma forma masculina. Ninguém me estranhou. Isso teve um poder gigantesco”, reconhece.
Ouça aqui a conversa completa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.
Enquanto o Brasil vivia o conturbado processo de afastamento da então Presidente Dilma Rousseff, Amina Bawa encontrava, em Portugal, uma espécie de “oásis” político. Estávamos em 2016, e o mestrado em Cultura e Comunicação abria as portas para uma nova casa. Dez anos depois da mudança, a jornalista e produtora cultural partilha, neste episódio de “O Tal Podcast”, o seu olhar sobre as transformações políticas em curso em Portugal, além de refletir sobre fronteiras raciais, familiares e académicas.
Apresenta-se como “100% brasileira e carioca”, mas faz questão de acrescentar ao cartão-de-visita genético 50% de herança nigeriana. “O meu pai deixou o Brasil quando eu era muito nova. Fez a licenciatura, mestrado, doutoramento, e voltou para a Nigéria, [o seu país]”, adianta Amina Bawa, que, já depois dos 20 anos, recuperou a ligação ao lado paterno.
O contacto, desde o falecimento do pai transferido para os tios, ‘alimenta-se’ com comunicações regulares, prelúdio de uma viagem – ainda por concretizar – ao encontro das origens africanas.
Para já, porém, os planos de voo cumprem-se, com crescente intensidade, entre Portugal e o Brasil.
Habituada a transitar entre os dois lados do Atlântico, a jornalista e produtora cultural tornou-se uma inesperada conselheira de viagens.
“Dou muitas orientações a pessoas que querem vir para Portugal estudar”, diz a carioca, que, a partir da sua experiência de mestrado, começou a facilitar aprendizagens.
As recomendações não se restringem, contudo, ao mundo académico, embora ele seja palco de muitas vivências.
“Tive professores dizendo: ‘hoje, vocês, investigadores, usam de uma vertente muito pessoal para falar e trazem isso para a academia. E eu pensava: que ótimo! É maravilhoso quando eu falo de mim, não do outro”.
Atenta às fronteiras que comprimem os trabalhos de pesquisa, Amina recorda, nesta conversa, o desconforto de querer “falar de pessoas pretas que estão sendo felizes, e que são bem-sucedidas dentro dos seus negócios”.
Ainda no domínio da academia, a carioca assinala que “há uma diferença muito grande entre o Brasil e Portugal”. Desde logo, nota a jornalista, “a gente fala muito da negritude, mas como é que a gente estuda quem criou esse conceito?”.
Para já, a resposta vem apenas do outro lado do Atlântico, onde se criou o Observatório da Branquitude.
Por cá, seguimos com as observações da convidada de Georgina Angélica e Paula Cardoso, também voltadas para as relações afro-brasileiras.
“No Brasil, tudo está muito conectado com África, mas a gente não conhece, é uma África que está muito no imaginário. E quando venho para Portugal, tenho um embate com as realidades africanas, o que é maravilhoso”.
Noutros “choques” de realidade, partilhados neste episódio, Amina revisita eleições de má memória – “Falo, brincando e com muita humildade, que nós brasileiros viemos do futuro. Tudo o que Portugal vai passar [politicamente], a gente já viu” – , e traumas de viagem.
“Não tenho medo de viajar sozinha, mas na Hungria já fui perseguida, quase sequestrada. Eles sequestram muitas mulheres para o tráfico sexual”.
Ouça a conversa completa aqui.
Aos cinco anos, na pré-primária, em Cabo Verde, Ana Josefa Cardoso tinha dores de barriga só de pensar em falar português. Hoje faz do ensino da ‘língua de Camões” profissão, enquanto mantém vivo o idioma materno. “A língua que une efetivamente todos os cabo-verdianos é o crioulo”, sublinha neste episódio de “O Tal Podcast”, em que reflete sobre o papel da escola e do professor, num contexto cada vez mais desafiante.
O ano de 1993 marca o início da carreira docente de Ana Josefa Cardoso, caminho que, mais de três décadas depois, continua a percorrer com o mesmo sentido de missão. “A tarefa do professor é inacabada. Um professor a sério é um eterno aprendiz”, destaca nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, lembrando que cada aluno é único.
Desde sempre empenhada em valorizar e acolher a diversidade humana, a professora revela como forjou o seu compromisso com a inclusão a partir dos próprios processos de exclusão.
“Fui para a pré-primária com 5 anos, em Cabo Verde, e foi o meu primeiro contacto com o português. Os alunos eram castigados por não falarem uma língua que não sabiam, e não tinham tido a oportunidade de aprender”.
A experiência deixou marcas, indissociáveis da consciência pedagógica entretanto formada, igualmente moldada no ‘apagão’ que esvaziou as lembranças do primeiro ano de escolarização em Portugal.
“Enquanto não falava português, entrava muda e saía calada [da escola]”, recorda a também investigadora, hoje consciente de que talvez o silêncio tenha sido o meio que encontrou para passar despercebida, e não se tornar alvo de chacota por causa do sotaque.
Com ou sem memórias desse período, Ana Josefa nota que a escola pode ser o primeiro local de confronto com “o conflito, o desânimo, as frustrações”. Aliás, acrescenta a professora, talvez venha desse reconhecimento – e da vontade de oferecer a proteção que não teve –, uma das motivações para ter escolhido o ensino.
A opção, iniciada no ensino da Língua Portuguesa, estendeu-se ao ensino e investigação da Língua Cabo-Verdiana, mais recentemente alargado a lições de português como língua não-materna.
“Os tempos vão mudando, o público é mais diverso, os desafios são maiores a todos os níveis. Se a escola não estiver aberta à mudança, não consegue ser hospitaleira”, defende, atenta ao impacto dos novos fluxos migratórios e linguísticos, bem como às transformações tecnológicas.
“Temos que ter propostas para que as nossas aulas sejam aliciantes para todos. Por isso digo que o professor tem de ser um eterno estudante, porque precisa de se atualizar para dar resposta aos novos desafios”.
Às vezes, assinala a docente, basta ativar a empatia. “Lembro-me da professora que tive a partir do 2.º ano: a dona Benvinda. Eu ia de lenço [na cabeça] para a escola, e ela levava o seu lenço ao pescoço e, várias vezes, pedia-me para lhe pôr como punha o meu”.
O episódio é partilhado como um exemplo concreto do papel que a Educação deve assumir. “Na escola, não aprendemos só a ler, a escrever e a contar, porque o professor não ensina só o que sabe, também ensina o que é”.
Ouça a conversa completa aqui.
Saiu de casa dos pais ainda criança, para estudar numa cidade maior, onde morou com os tios até começar a viver sozinho, quando tinha apenas 14 anos. Hoje com cinco décadas de história, Rodrigo Saturnino, ou simplesmente ROD, conta, neste episódio de O Tal Podcast, como os seus primeiros anos de vida se inscrevem numa trajetória “mais comum do que parece”. Mas se o passado do pesquisador e artista visual encontra eco noutras narrativas oriundas do interior do Brasil, o presente solta-se de expetativas alheias, e o futuro apresenta-se ainda mais livre. Assumidamente queer.
A história de vida de Rodrigo Saturno começou a cerca de 7.600 quilómetros de Lisboa, na pequena localidade de Jequitibá, localizada no estado brasileiro de Minas Gerais.
Desde 2007 em Portugal, o convidado de Georgina Angélica e Paula Cardoso soma cerca de 16 anos de academia portuguesa – entre estudos de mestrado, doutoramento e pós-doutoramento –, percurso marcado por várias investigações sobre o mundo digital.
É a partir dele que conserva, há quase duas décadas, os afetos familiares, ainda hoje fortemente enraizados na sua terra de nascimento, que descreve, afetuosamente, como uma “cidadezinha minúscula”.
“Jequi, como a gente fala, tem 5 mil habitantes”, aponta o pesquisador e artista visual, precocemente habituado a gerir distâncias: “O meu senso de independência foi muito prematuro”.
Desde os 10 anos longe da casa dos pais, de onde se mudou para morar com os tios e “poder receber melhor educação”, o cofundador do Coletivo Afrontosas e da União Negras das Artes, revela que embora tenha começado a desbravar caminho sozinho muito cedo, contou sempre com a supervisão parental.
Além de revisitar, com assumido orgulho, algumas das principais etapas do seu percurso – onde se inclui a criação de uma faixa com a polémica frase “Não foi descobrimento, foi matança” –, ROD aborda, nesta conversa, como está a lidar com o avançar da idade.
“Todo o mundo fala ‘você não parece que tem 50’. Aí pergunto: o que é parecer ter 50 anos? Ser velho, barrigudo, que desistiu da vida, entregou tudo?”.
Contrariando eventuais expetativas, o convidado deste episódio de O Tal Podcast adianta que, nesta fase, se sente “mais livre” de qualquer pressão para encaixar dentro dos comportamentos associados à idade.
Talvez resida aí um jeito queer de ser e de estar?
“O queer tem essa característica de ser diferente. É outra coisa, outro universo, outra leitura do mundo. É outra explicação das coisas”, defende, perentório na antevisão de que “o futuro é queer”.
Em que sentido?
“Queer é esse confronto, esse contraste, essa luta sem fim, essa tentativa de desencaixar de expectativas, de ter 50 anos, mas parecer ter 20”, explica, sem nunca perder de vista as múltiplas camadas que o atravessam.
Das provações da imigração, que põem em choque processos de integração e assimilação, passando pelas expressões de racismo na academia, nos algoritmos e outras tecnologias, a conversa termina com um breve olhar sobre as lições que ficam de um passado de estudos religiosos.
“Tenho aprendido que a espiritualidade não tem que ser doutrina, não tem que ser litúrgica. Mas tem que existir nessa relação com o mundo invisível”.
Ouça aqui a conversa completa.
Filho de cabo-verdianos, nascido em Lisboa em 1976, Carlos Alberto Monteiro Lopes gravou no corpo, como assinatura de identidade, a frase “Blood of a Slave, Heart of a King”. Em português: “Sangue de pessoa escravizada, coração de rei”. As palavras, explica o convidado desta semana de “O Tal Podcast”, devem ler-se como uma homenagem aos seus antepassados, e inscrevem-se numa composição de 13 tatuagens que transporta na pele. O número, indicativo de sorte, inclui a figura de Nossa Senhora de Fátima, expressão de uma fé que levou o empresário a ser catequista, e até a equacionar a vida de padre.
“Sou muito crente. Todos os dias, de manhã e à noite, rezo, peço a Deus”, revela Carlos Lopes, que herdou dos pais a devoção católica.
O legado familiar manifesta-se igualmente no mundo dos negócios, território no qual o anfitrião do Brooklyn Lisboa se estreou há cerca de 15 anos.
“Sempre tive a referência do meu pai como um exemplo a seguir. Ele foi um empresário de sucesso nos anos 90, teve altos e baixos, caiu, levantou-se”, conta Carlos, que, a determinada altura, decidiu mudar de rota.
“Trabalhei durante 12 anos em comércio internacional, que foi toda a minha experiência profissional. Tinha uma vida muito estável, e hoje pergunto-me: o que me passou pela cabeça para abrir o [restaurante] Harlem?”.
Primeiro no Cais do Sodré com o Harlem, e agora na Praça da Alegria com o Brooklyn, Carlos mantém a geografia inspiracional: “Sempre tive paixão pelos EUA. Toda a luta da cultura afro-americana, contra a segregação, com a música e a gastronomia à mistura, despertou-me como se eu tivesse nascido lá”.
Também desde que tem memória, o empresário recorda-se de fazer planos para que a história das migrações negras seja conhecida e reconhecida. “O Brooklyn Lisboa conta a narrativa entre Cabo Verde, as Américas e Portugal”, assinala o convidado deste episódio de “O Tal Podcast”, sem nunca se desligar da sua relação pessoal com essa rota.
“Os nossos pais emigraram para Lisboa no final da década de 60 e 70, e foram construindo a sua barraquita, o seu bairro de lata. Era ter no estrangeiro um mini país”, descreve, revisitando o quotidiano da sua primeira morada, acomodada entre Linda-a-Velha e Miraflores.
“Temos um grande orgulho de termos nascido e crescido na Pedreira dos Húngaros, pela resiliência que a vivência do bairro trouxe a cada um, pela facilidade com que enfrentamos as dificuldades”.
As memórias desses tempos conservam-se nas amizades que, década após década, se mantêm firmes. “É um orgulho tremendo ter amigos há quase 50 anos. Há um núcleo muito forte de partilha, amor, irmandade”.
A par da sustentação que vai buscar às relações de sempre, Carlos conta que também encontra abrigo no terreno onde em tempos existiu a comunidade da Pedreira dos Húngaros.
“Quando estou com o meu GPS emocional desregulado, passo ali na zona onde era o nosso bairro para lembrar a minha infância, a minha trajetória. É terapêutico”.
Noutras viagens, é Cabo Verde que sobressai, como destino de expansão das raízes e dos negócios.
Para conhecer nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, que pode ouvir aqui.
Veja também em youtube.com/@45_graus
Maria Castello Branco é comentadora política e cronista, e é autora do podcast "Lei da Paridade”, juntamente com Leonor Rosas e Adriana Cardoso.
Paula Cardoso e Georgina Angélica são comunicadoras e autoras de conteúdos, e autoras do "O Tal Podcast”.
Margarida Santos é médica de família e autora do podcast "Consulta Aberta”.
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Episódio especial gravado ao vivo na 3.ª edição do Podfest do Expresso, que decorreu a 27 de janeiro no Auditório da Universidade NOVA de Lisboa.
Neste painel juntaram-se quatro projetos com identidades e públicos distintos: o Lei da Paridade, representado por Maria Castello Branco, o Consulta Aberta, com Margarida Santos, o O Tal Podcast, por Paula Cardoso e Georgina Angélica — e, claro, o 45 Graus.
A conversa partiu das novas vozes e dos nichos que hoje encontram espaço no áudio digital, e explorou o que muda quando um projeto independente passa a integrar um grande grupo de media. Falámos de representação, de literacia — política e em saúde —, da relação íntima que o formato cria com quem ouve, das surpresas que as estatísticas revelam sobre o público e também do outro lado da exposição: o entusiasmo, o sentido de missão e, por vezes, o confronto com o ruído e o ódio nas redes.
Uma troca franca de ideias sobre como o podcasting abriu portas a protagonistas que antes ficavam de fora — e sobre a responsabilidade de as manter abertas.
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Esta conversa teve a sonoplastia de Hugo Oliveira
Ciência Política ou Engenharia do Ambiente? Dividida entre as duas licenciaturas, Margarida Valença precisou apenas de três meses para descartar a segunda opção. Apesar do gosto pelas cadeiras de Biologia, Química ou Física, a convidada deste episódio de “O Tal Podcast” conta que o curso não lhe despertava paixão. “Saí e fui procurar emprego para a Amnistia Internacional no ‘face-to-face’, que são aquelas pessoas que estão na rua e falam com as pessoas para angariar doadores”. A experiência, conta, trouxe-lhe boas conversas, e competências que vê como valiosas para o jornalismo, atividade que se tornou caminho ainda durante os estudos em Ciência Política.
Curiosa nata, há muito que Margarida procura respostas para múltiplas inquietações.
“Andei num colégio de freiras do primeiro ao quarto ano. Foi um motor muito importante para eu começar a questionar o mundo”.
Desde logo, a jornalista nota que quando passou a estudar numa escola não-católica, ficou “parva ao perceber que, afinal, as pessoas não acreditavam todas em Deus”.
Terá encontrado aí uma ‘permissão’ para, também ela, se libertar de crenças religiosas?
“Sinto que há muitas coisas a aprender sobre religiões, e tento ser uma pessoa que procura. Gosto muito dos princípios do hinduísmo, por exemplo. É uma religião que consegue encontrar validade em todas as religiões”.
Os questionamentos acentuam-se na política, tema ao qual sempre esteve exposta em casa, e que procurou aprofundar com ligações partidárias.
“Quis juntar-me à Juventude Socialista. Queria de alguma maneira estar envolvida, não sabia muito bem como. Achei que havia ali um conjunto de valores com os quais me identificava”.
Um ano depois de avançar, Margarida recuou, por sentir que “estava a ir a imensos eventos, mas não estava a fazer nada em concreto”. A desilusão não a desmobilizou, antes redirecionou-a para o Livre. Desta vez, porém, foram as práticas jornalística e partidária que se revelaram conflituantes.
“Mesmo que não esteja na secção de política, e a ir ao parlamento, ela está em todo lado”.
A constatação não alimenta, contudo, pretensões de neutralidade. “Acho que um jornalista não é uma pessoa que deve estar desligada de opiniões, nem de fazer jornalismo com valores”.
Idealista por natureza, Margarida sublinha que quando decidiu arrepiar caminho no mundo da comunicação social foi com a perspetiva de fazer coisas alinhadas com aquilo que idealiza.
O mesmo impulso guiou a experiência partidária, da qual extrai várias lições.
Por um lado, a jornalista observa que “um partido é feito de muita toxicidade, de toda a parte de discussão, de troca, de conflito”. Por outro lado, Margarida sugere que os partidos façam “uma reflexão muito grande” sobre a forma como chegam às pessoas, enquanto ela própria matuta nas suas reflexões.
“Um exercício que ultimamente tenho feito é escrever ao computador, às vezes uma hora, para perceber aquilo que penso e sinto. Porque às vezes é uma coisa confusa, quando estamos imersos, e à nossa volta muitas pessoas têm muitas certezas”.
Nos antípodas dessa amálgama de certezas, a jornalista lembra como começou a questionar aquilo em que ela própria acreditava.
“Comecei a ler coisas de autores mais liberais e autores mais marxistas, e a tentar enquadrar-me”. Com que impacto?
Ouça o episódio completo aqui.
Entre a calma de São Tomé e Príncipe, onde nasceu e cresceu, e a agitação da vida que encontrou em Portugal, há mais de uma década, Silvania de Barros recorda, neste episódio de “O Tal Podcast”, como lidou com esse contraste de realidades. “Venho de uma cidade pequena, e não me sentia preparada para viver em Lisboa. Eu dizia: é muito ruído, sinto que a minha cabeça vai explodir, são muitas vozes, muitas línguas”. O processo de adaptação trouxe impactos na saúde, física e mental, um dos temas desta conversa.
Formada em Gestão pelo ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, Silvania de Barros dedica-se, desde a adolescência, vivida em São Tomé e Príncipe, a projetos de intervenção social.
Cidadã ativa em defesa da igualdade de género, a são-tomense lembra que continua a ser necessário assinalar o óbvio: esta não é uma luta apenas sobre mulheres.
Justamente por isso, ao cocriar com um grupo de amigas o grupo de leitura “Obirin”, para promover autoras negras, fez questão de o manter aberto a todas as pessoas.
“As mulheres já escrevem há séculos, só não têm visibilidade”, lamenta, recomendando a todas as pessoas que, a cada leitura, façam um exercício de reflexão.
“Quem é que escreve o livro? Do que está a falar?”.
Atenta às assinaturas, temas e geografias que acompanham as obras, Silvania recorda que a iniciativa literária surgiu online na altura da pandemia, permitindo ir além da “bolha de Lisboa”. A cidade para a qual a são-tomense admite que não estava preparada quando, em 2014, “aterrou” no rebuliço da zona do Intendente.
“Os meus amigos diziam: tens que sair de casa, faz uma caminhada e estás na Graça, tens esse privilégio porque não precisas de apanhar transportes. E eu dizia: não consigo, é muito ruído”.
Talvez por isso tenha sentido a necessidade de trabalhar o silêncio e a solitude. “Mas no início fiquei a pensar: será que me estou a esconder de algo? Somos ensinados a estar sempre com pessoas”.
Além dos ajustes de movimento, a ativista destaca os efeitos que ainda hoje sente no corpo e na mente. Dos ganhos e perdas de peso, às dificuldades com o clima, Silvania partilha, neste episódio, como as consultas médicas, de várias especialidades, se tornaram uma rotina.
“São Tomé é um país quente, mas húmido. Quando vim para Portugal, comecei a sofrer muito com a respiração. Fui a uma consulta e o médico ficou incrédulo: nunca viu alguém que pudesse fazer tantas alergias”.
Os desafios clínicos estendem-se à própria relação com os profissionais, e dinâmicas do Serviço Nacional de Saúde. “Tinha baixado 20 quilos e agora aumentei 30. E não tenho sentido um acompanhamento verdadeiro. A primeira endocrinologista pediu as análises, a segunda já estava a passar-me antidepressivos, porque dizia que precisava de dormir”. Já num terceiro momento, Silvania conta que recebeu como recomendações uma cirurgia bariátrica ou a toma de Ozempic, medicamento indicado para o tratamento da diabetes, que tem sido prescrito para a perda de peso.
Apesar das provações, a convidada desta semana de Georgina Angélica e Paula Cardoso não tem dúvidas sobre a escolha da sua geografia. “Sei de onde sou, tenho muito fincada a minha identidade, as minhas origens, mas também gosto de me sentir um corpo livre. Estou onde consigo descansar, onde o meu coração está em paz”.
Ouça aqui a conversa completa.
Inglaterra substituiu o Exército nos planos de vida de Ismael Santos. Atraído pela possibilidade de um percurso académico que em Portugal não vislumbrava, o convidado deste episódio de "O Tal Podcast" conta como se desencantou com a via militar, e partiu à aventura para Londres, destino que trouxe um “grande abre-abrolhos”: a formação em Economia. Mas é no desporto, como personal trainer, que Ismael vive a grande paixão, e transforma em projeto os seus três pilares de vida – fé, legado e resiliência.
Entre trabalhar em Economia, onde investiu três anos de estudos superiores, e especializar-se como personal trainer, área na qual se iniciou após cinco meses de formação intensiva, Ismael Santos não hesitou.
“Entrei num caminho sem volta”, diz, recordando o encantamento que o afastou da escolha académica. “Fui ganhando experiência como personal trainer, criando relações, comecei a fazer contactos. Dei por mim tão envolvido nessa área, que nem considerei trabalhar em Economia”.
Agora à frente do seu projeto – o Alphastry Club –, Ismael aplica as aprendizagens do curso universitário para promover saúde e bem-estar, desafiando mais pessoas a “adicionarem vida aos seus anos”.
Com uma proposta que combina exercício físico e mental, o convidado de Georgina Angélica e Paula Cardoso lembra a importância da resiliência, um dos pilares que fazem parte da sua história, a par da fé e do legado.
A família destaca-se nessa tríade, enquanto fonte de motivação e inspiração diária, indissociável da vivência que teve em casa. “No seio dos meus amigos, sou dos poucos que tinham os pais juntos”.
Hoje com três filhos, todos menores de idade, Ismael recorda nesta conversa um dos momentos mais difíceis que ultrapassou, com a então parceira de quase 10 anos de vida.
“Com o fim da minha relação, dei por mim como se tivesse falhado como homem. Porque tinha uma responsabilidade, filha, companheira, casa. Tínhamos planos”.
A experiência aconteceu no início da mudança para Inglaterra, destino de emigração que arriscou há mais de uma década, depois de uma curta passagem pelo Exército.
“Quando caímos, levantamo-nos. Esses momentos ajudam a solidificar a resiliência mental, e a construir uma nova identidade”.
Já refeito da culpa que acompanhou essa rutura conjugal, o personal trainer lembra que há sempre um contexto para cada história.
“Entrava às 6h no ginásio. Saía de um, ia para o outro, e chegava a casa às 23h30, esgotado. Mas quando temos a barriga vazia, temos de ir atrás”.
Mais do que seguir no encalço do que é preciso, Ismael empenha-se, dia após dia, em incentivar outras pessoas a fazerem-no, algo que se liga à influência familiar.
“Sou o mais velho de cinco irmãos. Sempre olharam para mim como a referência”, nota o primogénito dos Santos, que, com a decisão de emigrar para Inglaterra inspirou a família a seguir-lhe as pisadas.
Entretanto regressado a Portugal, o personal trainer revisita diferentes etapas da temporada no estrangeiro, incluindo uma passagem de má memória pela Escócia.
“Em Edimburgo tive algumas experiências desagradáveis. O supervisor dos seguranças do centro comercial onde trabalhava tinha uma suástica tatuada”, recorda neste episódio de "O Tal Podcast".
Ouça a conversa na íntegra aqui.
Presença confirmada no programa europeu de talentos "Shooting Stars" – que vai decorrer durante o 76.º Festival de Cinema de Berlim, de 12 a 22 de fevereiro –, Cleo Diára continua a firmar créditos internacionais, depois de vencer o prémio de melhor atriz na secção Un Certain Regard, do Festival de Cannes, pela interpretação em "O Riso e a Faca", de Pedro Pinho. Neste episódio de “O Tal Podcast”, a também encenadora revisita as emoções de Cannes, recorda a infância em Cabo Verde, partilha as primeiras impressões sobre Portugal, e a inesperada trajetória artística, trilhada depois de uma passagem pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa.
É aos primeiros anos de vida, em Cabo Verde, que Cleo vai buscar o fascínio por enredos que lhe aguçam a criatividade. “Quando me contam histórias, começo a imaginar, fico a criar as minhas imagens”, revela a atriz que, na infância, em casa da avó materna, descobriu a magia dos contos populares.
Hoje com 38 anos, e desde os 10 em Portugal, a atriz conta, nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, que o encanto pelos universos narrativos se mantém.
“Não é a importância de estar num palco ou filme que me move, mas como posso honrar as histórias que conto, que esperanças posso brotar”.
Formada na Escola Superior de Teatro e Cinema (ESTC), Cleo ainda ensaiou uma temporada de estudos no ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa.
“Ser atriz era uma vontade que toda a gente sabia que eu tinha, mas que continuava a ser recalcada”, partilha, lembrando que, quando anunciou que pensava candidatar-se à ESTC, ouviu de toda a gente um sonoro: “Não vais entrar”.
Cleo tinha 23 anos, nenhuma referência artística na família, e pouca exposição à dramaturgia. “Os primeiros tempos na ESTC foram duros. Não andei, tive de correr, de dar saltos”.
Ao revisitar o percurso, já consagrado com o prémio de melhor atriz na secção Un Certain Regard, do Festival de Cannes – pela interpretação em "O Riso e a Faca", de Pedro Pinho –, a convidada deste episódio de “O Tal Podcast” faz questão de partilhar o palco.
“O Mário Coelho foi super importante, porque eu estava a lidar com as inseguranças de não ter vindo de uma família artista, de não saber as coisas. E ele dizia: tu sabes o que sabes, tens a tua cultura, as outras pessoas têm a delas”.
Tal como o amigo e encenador Mário, Nádia Yracema e Isabél Zuaa, amigas e parceiras no coletivo “Aurora Negra”, compõem o elenco de protagonismos da história de Cleo, reconfigurada a partir do encontro com as duas atrizes.
“Estávamos a desenvolver o guião, a estrutura do espetáculo [Aurora Negra], e a falar sobre a nossa ancestralidade. E elas iam falando dos povos de onde vinham, tanto da Guiné quanto de Angola. Eu não tinha para onde ir além de saber que era cabo-verdiana. Então decidi investigar a minha família, encontrar os apelidos dos meus avós e bisavós”.
Dessa busca surgiu a identidade Diára, nome que emprestou à personagem que viveu em "O Riso e a Faca”, e com o qual homenageia a sua africanidade, indissociável do exemplo da bisavó Ana.
É com ela nos pensamentos que afirma: “Digo a mim mesma ‘tu és uma reparação histórica’. Porque havia momentos em que os nossos não podiam entrar pela porta da frente, quanto mais sentar à mesa”.
Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso.