Radyora

Enterrados no Jardim

Diogo Vaz Pinto e Fernando Ramalho
Diogo Vaz Pinto e Fernando Ramalho à conversa, leve ou mais pesarosamente, fundidos na bruma da época, dançando com fantasmas e aparições no nevoeiro sem fim que nos cerca, tentando caçar essas ideias brilhantes que cintilam no escuro, ou descobrir a origem do odor a cadáver adiado, aquela tensão que subtilmente conduz ao silêncio, a censura que persiste neste ambiente que, afinal, continua a sua experiência para instilar em nós o medo puro. Vamos desenterrar, perfumar e puxar para o baile os nossos amigos enterrados no jardim, e deixar as covas abertas para empurrar lá para dentro aqueles que só aí andam a causar pavor e fazer da vida uma austera, apagada e vil tristeza.
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Episodes

2026-05-16 · 237 min
Nesta república de sonsos, em breve o ódio terá o melhor de nós, a parcela que, num acesso revoltoso, se esforça ainda por compreender o estado das coisas, e será a última expressão contendo um verdadeiro sinal de fervor…
2026-05-09 · 298 min
De toda a parte nos chegam avisos quanto a uma crise de autores teatrais, ou do conto, do romance, géneros que déramos como adquiridos, elementos constantes de uma plena função cultural, mas se se perdeu o entusiasmo das…
2026-05-02 · 273 min
A natureza não dá satisfações. À sua semelhança, também a poesia faz o que precisa fazer, e ninguém deve esperar que se enrede em justificações. Por outro lado, a crítica é uma arte de se mostrar audaz nos motivos que ar…
2026-04-24 · 176 min
Exaustos de seres virados do avesso, sem interior, protagonistas incapazes de se despirem no escuro, trabalhando essa luz desesperada que vai de escândalo em escândalo, tínhamo-nos procurado retirar entre aquilo que nos …
2026-04-17 · 231 min
Desta vez, tivemos de nos ficar pelos trabalhos preparatórios, já que este texto, que costuma ser redigido depois, teve de ser apressado, vindo antes, e a previsão é que Victor Barros (cabo-verdiano, historiador doutorad…
2026-04-11 · 224 min
Certa vez Herzog recomendou o cinema como uma arte tão cativante por se manter imune às obsessões dos eruditos, sendo um recreio dos iletrados. Nietzsche desdenhava daqueles que assumem a leitura como um passatempo, essa…
2026-04-04 · 229 min
O meu demónio quer saber onde está o divã. Quer deitar-se nele e dar início ao disparate que tivemos de interromper da última vez. De qualquer modo ficamos sempre a meio. É impossível chegar a algum lado com estes rodeio…
2026-03-30 · 267 min
“Também a ‘realidade’ dos corpos inocentes foi violada, manipulada, adulterada pelo poder consumista: mais ainda, essa violência sobre os corpos tornou-se o dado mais flagrante da nova época humana… As vidas sexuais priv…
2026-03-20 · 287 min
“Daqui por mil anos não restará nada/ de quanto foi escrito neste século./ Hão-de ler-se frases soltas, pegadas/ de mulheres perdidas,/ fragmentos de crianças imóveis,/ os teus olhos lentos e verdes/ simplesmente não exi…
2026-03-13 · 262 min
Sempre que se diz alguma profanidade com suficiente desarranjo para ferir a sensibilidade do leitor começa a contagem decrescente em que toda a gente se sente no direito de exigir a súbita torção redentora ou, pelo menos…
2026-03-07 · 182 min
“Tudo é fácil quando temos vontade própria e estímulo alheio, mas é difícil sermos aquilo que somos. Os outros não deixam.” E ainda que lhes fosse indiferente, que não se acumulasse neles esse rancor de ver alguém tomar …
2026-03-03 · 257 min
A notoriedade actual de certos escritores baseia-se sempre num mal-entendido. Há um desejo de ver surgir figuras que possam corresponder à imagem do grande homem, esse capaz de encarar o mundo por meio de ideias imunes a…
2026-02-26 · 288 min
“Veio-me à cabeça a imagem do general Garibaldi quando, ao partirem de Roma, disse aos soldados que lhes oferecia sede e calor durante o dia, fome durante a noite e perigo a toda a hora…” Isto serve como impulso se nos v…
2026-02-21 · 287 min
Em tempos que talvez nem possam ser outra coisa senão uma pura efabulação, um desvio, uma desordem dessas para as quais nos viramos quando os sonhos se põem a lutar contra o mundo, chegávamos a um desses textos onde pare…
2026-02-13 · 207 min
Depois de milénios em que a invenção era cantada, os corpos se desdobravam e as formas de beleza estavam ligadas a um prazer e gozo gestuais, em que o ritmo dos relatos e das lendas estava submetido, não apenas à intensi…
2026-02-07 · 223 min
No ano da sua morte, 1988, António José Forte lembrava, numa entrevista que deu a Ernesto Sampaio para o “Diário de Lisboa”, a frase que por aqueles dias ainda podia ler-se num muro da Avenida de Berna: “Não vos inquiete…
2026-01-31 · 258 min
Considerando o adiantado da hora, seria bom ouvir alguém dizer-nos que as horas passadas e presentes partiram dum mal-entendido. Se fosse ainda importante fazermo-nos entender, deveríamos virar-nos de costas a esta conte…
2026-01-23 · 234 min
Por toda a parte os mesmos sinais, frases, cadências, até as moscas estão a ler o mesmo que nós, esta literatura imunda que tomou conta de cada ruído, mastigamos lendo, como se a nossa falta de carácter ou convicção foss…
2026-01-17 · 258 min
Ao longo dos séculos quantos terão contemplado as possibilidades de se livrarem dos seus perversos corpos? Eles mais pelo desejo de que se sentiam adoecer, elas por se verem encurraladas, sendo-lhes dito que os seus corp…
2026-01-10 · 236 min
Os mortos não gostam de estar sós. Alguém tem de lhes encher os comedouros, aplacar minimamente os seus apetites. De outro modo a única coisa que o luto pede é vingança, e o sangue só quer beber mais sangue. Contamos his…